sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Arrependimento e paz...



ARREPENDIMENTO E PAZ

Num intervalo das agudas perseguições, retornando da Samaria, onde falara para muitos conversos e curara com João, Pedro foi procurado por um jovem, que trazia o 
corpo coberto de pústulas nauseantes, no afã da Casa do Caminho, sempre repleta de necessitados. Desfigurado 
pela inflamação da face, eram apenas os olhos miúdos 
que brilhavam e a voz rouca suplicando comiseração. 
Quando o Apóstolo se aproximou, o enfermo 
prosternou-se e exclamou:
– Homem santo de Deus!
Pedro interrompeu-o com veemência:
– Sou apenas homem impuro como tu...
– Mas podeis curar-me – choramingou o visitante em desequilíbrio – eu acabo de ser expulso da cidade, do convívio dos sãos, em razão da lepra que me devora 
o corpo e a alma infeliz...
Não pôde prosseguir. Quase em convulsão, tartamudeou:
– Tudo começou... no templo... no apedre... jamento ...
Pedro quase recuou horrorizado . Recordava-se daqueles olhos perversos, frios, e dos gritos do agitador, que conclamava a turba em fúria para a lapidação de Estevão. Jamais o esqueceria. Era jovem e guapo, ágil e violento. Gargalhava e apedrejava o prisioneiro indefeso. Apiedara-se dele a partir daquele momento. Pedro conhecia a força 
do “choque de retorno” nas “carnes”, da própria “alma”. Orou por ele, então, naquela ocasião, 
e agora ele estava ali suplicante.
– Que te aconteceu?! - Indagou, compungido.
– Não vos recordais de mim ?! - Interrogou, 
desconsolado – Apedrejei e conduzi a malta 
contra o vosso irmão até a sua morte, 
há pouco tempo...
Fez-se grande e dorido silêncio, que ele quebrou, 
dando prosseguimento:
– A partir daquele dia – ainda me recordo da mirífica luz que vi brotar do mártir antes de morrer – perdi a alegria barulhenta de viver, eu que, alucinado, já não tinha paz. 
Os seus olhos em chama e em tranqüilidade, 
desvairavam-me. Tropecei no arrependimento 
mais cruel e fugi 
para a embriaguês dos sentidos, a que já me acostumara. Por mais desejasse esquecer, aumentava-me sempre a lembrança do crime, da crueldade perpetrada.
Silenciou por um pouco, e aduziu:
– Passei a sentir comichão nos braços apedrejadores 
e dores nas articulações. Pequenos botões em flor de 
carne avermelhada surgiram-me na pele e começaram 
a explodir em pus... Depois, no peito, no ventre,
nas pernas, no rosto, em todo corpo... E a febre que me açoita,arbusto frágil que sou no vendaval, não cessa, enlouquecendo-me. Os doutores receitaram-me 
ungüentos, sacrifícios no Templo, que executei, sem resultado. Hoje me expulsaram... O vale dos imundos 
será o meu lugar. Recordei-me de vós, que curais 
as doenças do corpo e do Espírito, porque a minha, é enfermidade da alma perversa, que se exterioriza 
no corpo infame. Tende piedade, em nome do 
vosso Mestre! Mandaram-me procurar-vos, os 
parentes meus, que fogem de mim. Venho rogar perdão, antes de matar-me, pois que, mil vezes é melhor a 
morte com honra do que a vida com desgraça!
– Acalma-te, meu filho – ripostou o Apóstolo – e 
não blasfemes. A vida é bem de Deus, que a dá, 
a conduz e a interrompe no corpo, quando Lhe apraz, 
a fim de trasladar a alma à eternidade, onde nada perece. Necessitas viver, a fim de reparares o teu mal, o que 
fizeste aos outros, e encontrares a felicidade real, 
que ainda não desfrutaste. Realmente, os erros aqui 
na Terra cometidos, como nos ensinou o Senhor, 
aqui serão resgatados. Arrepende-te sinceramente, 
e não apenas para recuperares a saúde, porque, 
enquanto não se dá a transformação interior, 
transita-se de uma enfermidade para outra, sem 
que se encontre a saúde real, que é paz de espírito.
O jovem, deformado pelas ulcerações, ainda ajoelhado 
e súplice, afogava-se no caudaloso rio das lágrimas. Profundamente compadecido, o Apóstolo orou a Jesus. 
Não terminara a prece sentida, quando vislumbrou Estevão, nimbado de claridade diamantina, 
adentrando-se pelo recinto, sorrindo e acercando-se. 
Simão ficou extasiado e começou a chorar suavemente.
– Pedro – falou o visitante iluminado – o amor e 
a caridade são as asas que nos elevam o ser a Deus, 
quando o conhecimento da verdade lhe sustenta o pensamento e lhe vitaliza o coração. Socorramos o 
pobre irmão, que corre pelo apertado espaço de 
sombras, no qual se encontra, para que reconquiste a 
saída para a luz libertadora. É da Divina Lei que
retribuamos com o bem todo o mal que recebermos. 
Assim, não há outra alternativa, senão amar e ajudar. 
As feridas que cobrem o corpo do enfermo são as 
energias que o intoxicavam e agora são expelidas. 
O seu arrependimento e os propósitos para tornar-se 
melhor, secarão o poço de peçonha. Mas nós lhe 
devemos cicatrizar as chagas externas com o 
bálsamo da compaixão.
Simão, então, explicou ao enfermo:
– Os céus ouviram tuas súplicas, e Estevão, 
vivo e puro, vem te auxiliar através das minhas 
mãos e do teu arrependimento real.
Colocando a destra sobre a cabeça e a sinistra
sobre a fronte febril, Pedro orou, enquanto o 
doente estorcegava, afirmando arderem o corpo 
e as chagas, até cair exausto, banhado por álgido suor. Terminando a aplicação de energias, o “pescador de 
almas” tomou-o nos braços fortes, acostumados a 
segurar as redes no mar da Galiléia, e recolheu o 
paciente desmaiado à enxerga mais próxima. 
Lentamente as feridas e intumescências vermelho-arroxeadas começaram a murchar, e a pele foi-se recuperando, até tornar-se lisa e sem mancha. 
Deixando-o dormir, o discípulo abnegado 
recordou-se de Jesus e balbuciou, comovido:
– ...E “não tornes a pecar, para que não 
te aconteça algo pior”.
Afastou-se em silêncio com o coração explodindo 
de alegrias e de gratidão a Deus, reflexionando
na sabedoria e misericórdia das Leis da Vida.

Amélia Rodrigues

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